A Fila dos Meninos, a Fila das Meninas: O que a Escola Ensina sem Dizer

BSEditado por Bruno Schuck · Desfazendo Gênero

A cena é tão comum que raramente é vista. A professora precisa levar a turma até o refeitório e, para organizar a saída, pede que os meninos formem uma fila e as meninas, outra. Ninguém protesta, ninguém estranha; a fila se forma em segundos, as crianças descem a escada em duas colunas ordenadas e o almoço acontece sem incidentes. Do ponto de vista da gestão de uma turma de trinta crianças agitadas, é uma solução impecável. E é justamente por funcionar tão bem que essa prática merece ser olhada de perto — porque aquilo que resolve um problema imediato de organização pode estar, ao mesmo tempo, ensinando algo que ninguém decidiu ensinar.

A pergunta que interessa não é se a professora agiu com boa intenção. Quase sempre agiu. A pergunta é outra: o que uma criança aprende, ao longo de anos, quando o sexo é o critério que a escola usa para dividir, ordenar e diferenciar? E o que a escola pressupõe sobre meninos e meninas quando escolhe esse critério em vez de tantos outros disponíveis?

O que se aprende fora da lição

Há décadas a pedagogia trabalha com a noção de currículo oculto — o conjunto de aprendizados que a escola transmite sem que estejam escritos em nenhum plano de aula. A criança aprende matemática na aula de matemática, mas aprende também, sem que ninguém anuncie, quem pode falar mais alto, de quem se espera comportamento e de quem se espera desempenho, o que é normal e o que é exceção. Esse currículo não declarado costuma ser mais duradouro do que o conteúdo formal, porque não se apresenta como algo a ser memorizado para uma prova: apresenta-se como o modo natural das coisas serem.

A separação por sexo é um dos vetores mais eficientes desse currículo oculto justamente porque é invisível como conteúdo. Nenhuma escola tem, em seu projeto pedagógico, uma disciplina chamada “diferenças entre meninos e meninas”. No entanto, a criança que passa a educação infantil e o ensino fundamental sendo separada da outra metade da turma a cada fila, a cada divisão de equipes, a cada brincadeira “de menino” e “de menina”, recebe uma mensagem repetida milhares de vezes: existe uma linha fundamental que corta a humanidade em dois, essa linha é o sexo, e ela importa o suficiente para organizar o cotidiano. A mensagem não precisa ser dita porque é encenada todos os dias. E o que é encenado com regularidade tem um poder de convencimento que o discurso explícito raramente alcança.

Vale ser preciso aqui para não cair na caricatura. O problema não é que uma fila dupla vá, sozinha, determinar o destino de alguém. É que ela não vem sozinha. Ela se soma às cores atribuídas na maternidade, aos brinquedos oferecidos, aos elogios diferentes que meninos e meninas recebem, à tolerância desigual à bagunça. A escola não inventa a socialização de gênero — ela a encontra já em curso e, ao adotar o sexo como critério organizador, a ratifica, empresta a ela a autoridade da instituição. Uma criança pode duvidar da avó que diz que menino não chora. É mais difícil duvidar da escola inteira, funcionando em duas filas, dia após dia.

O que a prática pressupõe

Toda divisão carrega um pressuposto sobre por que aquele critério é o relevante. Quando uma professora divide a turma por ordem alfabética, pressupõe apenas que precisa de duas metades quaisquer e que o alfabeto é um sorteio neutro. Quando divide por sexo, o pressuposto é mais denso: supõe que ser menino ou menina é uma diferença pertinente para aquela tarefa — descer a escada, formar times, sentar-se. Na maioria dos casos, não é. Não há nada na biologia de descer uma escada que torne o sexo uma variável útil. A escolha do critério, então, não decorre da tarefa; decorre de um hábito cultural que trata o sexo como a diferença mais saliente entre as pessoas, mais saliente que a idade, a altura, o temperamento ou o simples acaso.

Há um segundo pressuposto, mais silencioso, embutido nessa escolha: o de que meninos formam um grupo internamente parecido e meninas, outro. Ao separar, a prática sugere que faz sentido esperar coisas semelhantes de todos os meninos e coisas semelhantes de todas as meninas — que há um jeito de menino e um jeito de menina. É aqui que a leitura crítica encontra sua tensão mais produtiva, porque a experiência de qualquer educador desmente esse pressuposto diariamente. As diferenças dentro do grupo dos meninos são enormes; as diferenças dentro do grupo das meninas também. O menino quieto que adora desenhar tem mais em comum com a menina quieta que adora desenhar do que com o menino que não para de correr. A divisão por sexo torna essas semelhanças reais invisíveis e faz sobressair uma diferença que, para a maior parte das atividades escolares, é irrelevante.

É preciso reconhecer, com honestidade, que a prática também produz efeitos que os defensores apontam com razão. Separar filas reduz certos conflitos, organiza o vestiário, resolve constrangimentos ligados ao corpo na puberdade. Ninguém sério propõe ignorar essas questões. O ponto da crítica não é que a diferença sexual jamais possa ser considerada — em uma aula de educação sexual, num vestiário de adolescentes, ela é obviamente pertinente. O ponto é que a prática, quando se generaliza para tudo, deixa de responder a uma necessidade concreta e passa a operar como um automatismo. A pergunta que o educador pode se fazer é simples e reveladora: esta tarefa específica exige o critério sexo, ou eu o estou usando porque é o mais rápido de acionar?

O que a prática produz sem querer

Efeitos não intencionais são o coração de qualquer leitura crítica, porque são aquilo que a boa intenção não protege. A separação rotineira por sexo produz, sem que ninguém queira, ao menos três coisas que valem ser nomeadas.

A primeira é a naturalização da fronteira. Quanto mais uma divisão é repetida, mais ela deixa de parecer uma escolha e passa a parecer um fato do mundo. A criança não conclui “a escola decidiu nos separar assim”; conclui “meninos e meninas são coisas separadas”. A fronteira, que é uma convenção organizacional, converte-se em ontologia infantil — em uma crença sobre como a realidade é. E crenças formadas cedo, pela repetição silenciosa da prática, são difíceis de revisar depois, precisamente porque nunca foram formuladas como crenças que se pudesse discutir.

A segunda é a produção de policiamento entre pares. Onde há duas categorias claramente demarcadas e reforçadas pela instituição, surge quase inevitavelmente a vigilância sobre quem pertence a qual. A criança que se coloca na fila “errada”, que escolhe a brincadeira do outro grupo, que cruza a linha, torna-se alvo de correção — não só dos adultos, mas sobretudo das outras crianças, que aprenderam com a escola que essa linha importa e passam a defendê-la. A separação institucional fornece a matéria-prima do constrangimento entre pares. O menino que gosta de dançar e a menina que gosta de futebol pagam um preço que a fila dupla ajudou a criar, ainda que nenhum adulto tenha desejado esse desfecho.

A terceira, talvez a mais sutil, é a perda de repertório de convivência. Quando meninos e meninas são sistematicamente mantidos em grupos separados nas tarefas cotidianas, perde-se a oportunidade banal e preciosa de aprender a conviver na diferença sem que ela seja um evento. Cooperar num trabalho, dividir um material, resolver um desacordo com alguém do outro grupo deixa de ser rotina e vira exceção — e o que é exceção tende a ser vivido com desconforto. A escola que separa por hábito priva as crianças, sem perceber, do treino mais elementar da vida adulta compartilhada, que é o de trabalhar com quem não é igual a você.

Convém insistir que nenhum desses três efeitos depende de má vontade. Eles operam justamente porque ninguém os planejou: são subprodutos de uma solução prática que, repetida durante anos, sedimenta-se como visão de mundo. É o que torna a leitura crítica necessária e, ao mesmo tempo, delicada. Necessária, porque o que não é nomeado não pode ser revisto. Delicada, porque apontar o efeito não equivale a acusar a intenção, e confundir as duas coisas costuma travar a conversa antes que ela comece. O educador que dividiu a turma em duas filas não fez nada de reprovável; apenas usou uma ferramenta cujo custo oculto vale a pena conhecer.

O que fazer com essa leitura

Uma leitura crítica não se completa numa denúncia. Seu objetivo não é fazer o educador se sentir culpado por uma fila, mas devolver a ele a consciência de uma escolha que o hábito havia automatizado. Reconhecer que a separação por sexo é uma convenção, e não uma necessidade, abre um espaço de decisão que antes não existia. E esse espaço admite respostas variadas, que não precisam ser radicais para serem significativas.

A alternativa mais imediata é perceber quantos critérios de organização estão disponíveis e são igualmente eficientes: número de chamada, cor da camiseta do dia, mês de aniversário, a mão que cada um levanta primeiro, o simples “contem-se de um a dois”. Qualquer um deles organiza uma turma tão bem quanto a divisão por sexo, com a vantagem de não ensinar nada sobre a suposta importância dessa divisão. Trocar o critério não custa esforço pedagógico nenhum; custa apenas atenção. E a atenção, nesse caso, é o próprio conteúdo da mudança.

Há aqui uma tensão que seria desonesto esconder. Nenhum educador consegue eliminar o gênero da escola, e talvez nem devesse querer, porque as crianças chegam à sala já formadas por ele e precisam de espaço para elaborar quem são. O objetivo de uma leitura crítica como esta não é uma escola cega às diferenças, mas uma escola que decide, caso a caso, quando a diferença sexual é pertinente e quando é apenas um atalho herdado. Entre a separação automática e a negação ingênua de que o gênero existe, há um terreno largo e mais interessante: o de uma prática que se pergunta, antes de dividir, o que está de fato dividindo — e o que, ao dividir, está ensinando sem dizer.

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